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Escrever é bom

Eu já sabia, mas fingi que não sabia, que esse negócio de blog/diário não abre meu apetite. Não me fala ao pau, diria Berenice, minha mãe. Tentei, pelo menos. Mas escrever é bom. Então vou usar este espaço aqui pra postar uns contos, uns pedaços de negócio aqui e outro negócio ali, que eu escrevo de vez em quando. Tudo ficção, porque eu gosto de inventar coisa.

Segue aí o primeiro, que não dei nome.

***

Não preguei os olhos essa noite. Aquelas fotos encostadas na parede da sala estavam me jogando na cara toda a minha facilidade em deixar as coisas pela metade. Ou nem isso: às vezes apenas começo. Às vezes apenas penso em começar. Penso muito em começar. Estudar russo para ler Tolstói, aprender tango para quando finalmente for a Buenos Aires, fazer natação para melhorar minha bronquite. Não li Tolstói nem em português. Os livros que tenho aqui em casa eram todos de minha mãe. Sigo na vida colecionando fantasias e atos inacabados. Não acho que vá mudar nada em mim pendurando, enfim, as fotos, mas também não preciso que elas fiquem ali rindo de mim e apontando dedos. Não fico em paz na minha própria sala. Fui comprar um maldito martelo para lhes calar a boca. Restava descobrir onde diabos tem uma loja de material de construção por aqui. Toda vez que preciso de algo que não é toda hora que preciso tenho que redescobrir esse bairro que já me conhece há tantos anos e que, se fosse um homem chamado Osmar, eu me confundiria sempre o chamando de Itamar, Ismar, Orlando? Já na quarta rua que explorava atrás do martelo, vi, no outro quarteirão, andando em minha direção, um cachorro. Um cachorro que me encarava. Ele na minha direção e eu na direção dele. Não gostei de ser observada, mesmo que por um cachorro, e tentei me esconder. Pensei em mudar minha rota para fugir, mas ele me achou. O cachorro e seu imenso olhar de cão. Aquele cachorro me reconheceu. Não acreditava em vidas passadas até aquele cachorro me encarar. Aquele cachorro me reconheceu de algum lugar e eu nunca o tinha visto antes. A gente foi se aproximando e meu corpo foi ficando tenso. De onde ele me conhece? Ele me olhando e eu olhando de volta. Digo alguma coisa? Paramos os três, eu, o cachorro e seu dono, um do lado do outro, para esperar o sinal abrir. E o cachorro a me fitar. O bicho sentou virado para mim, me olhando inteira. Eu olhava de rabo de olho, fixa no sinal. O sinal dessa esquina é demorado, é arapuca para quem é impaciente e eu estava ficando impaciente. Pensei se o cachorro sabia que eu, uma mulher de 48 anos, não tinha martelo em casa nem sabia onde conseguir um. Contei até 60, continuava vermelho. E o cachorro a me fitar. Isso já era falta de educação, quis dizer, mas não seria a primeira a dizer nada. Se ele quiser, que fale comigo, que me aponte o caminho para o martelo ou me diga que também não sabe onde encontrar um. Mas me encarar assim, como se soubesse melhor do que eu como eu tinha ido parar ali, não. Junto com o sinal verde chegou uma chuva torrencial que desabou sem nenhum aviso. O dono do cachorro prontamente abriu um guarda-chuva. Que tipo de pessoa tem guarda-chuva na hora que a chuva cai? O pior tipo. Gente que sempre espera o pior. Gente que gosta de jogar na cara dos outros que já sabiam, sempre souberam, que a tragédia espreitava na esquina. Gente preparada. E depois ainda sorriem vitoriosos com seu guarda-chuva. Tipinho arrogante. Eu e o cachorro, ensopados, pois sem guarda-chuva, olhamos para o homem com espanto. Me despedi do cachorro sem dizer nada e corri para atravessar a rua porque esse sinal só é lento para abrir. Do mesmo jeito que pega os impacientes, pega os lerdos. Precisei forçar a lembrança do porquê da urgência do martelo, perturbada por aquele encontro. Virei a esquina e entrei na primeira porta aberta que vi. Não sabia se fugia da chuva ou do cachorro. A portinha aberta era a entrada de um prédio. Um corredor mal iluminado e quase vazio. Tinha uma cadeira ali, mas não tinha ninguém sentado. Aceitei o destino e sentei eu. A chuva é bonita quando não cai na gente. Abafa os ruídos da rua, faz as cores se alargarem e tudo brilhar. Ela caía grossa. Grossa e pesada. E talvez minha janela estivesse aberta. As fotos, sofá, mesa, todos agora riam de mim. Não posso voltar para casa sem esse martelo, hoje resolvo isso. Hoje resolvo tudo. Hoje resolvo alguma coisa. Pegar Guerra e Paz, acho arriscado. Melhor começar com alguns contos. Vou pendurar as fotos. Primeiro, viradas para a parede, para elas aprenderem a me respeitar. Vou tomar o controle da minha casa e da minha vida, adotar um gato e comprar logo dois martelos e talvez um conjunto de chaves de fenda, Phillips incluída. Vou aprender a dançar tango em Buenos Aires. Não é possível. Não é possível que, de todas as portinhas abertas em que eu poderia ter entrado, eu entrei na portinha do prédio do cachorro. É ele entrando aqui. Ele e aquele homem esnobe. O homem, claro, nem reparou em mim. Eu, uma planta murcha, uma barata passando, tanto fazia para ele, mas o cachorro está feliz em me ver e parece querer me dizer alguma coisa. Se ele falar, eu falo. O que é? O homem está carregando uma sacolinha, sim, eu estou vendo. Se você não lembra meu nome, não vou te dizer nada, o que é que tem a sacola do homem? Subir com vocês? Sim, eu li, está escrito Casa das Ferramentas. Ferramentas! É claro que este homem arrogante achou uma loja de material de construção e comprou um martelo e agora esfrega, metaforicamente porque ainda age como se eu não estivesse ali, a sacolinha dele com martelo na minha cara. Eu estou indo, vou subir com vocês, esse martelo é meu! E hoje, pelo menos, eu termino alguma coisa.



 
 
 

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